Gestão de recursos hídricos

Importância e desafios na conservação dos recursos

Mário Marcelino, Dr.

11/26/20256 min read

Gestão de Recursos Hídricos: Conservação, Governança e Experiências Brasileiras

1. Introdução

A água doce constitui um recurso natural essencial para a vida e para o desenvolvimento econômico, social e ambiental das sociedades humanas. Sua disponibilidade, no entanto, é limitada e distribuída de forma desigual no espaço e no tempo. O crescimento populacional, a urbanização acelerada, a expansão agrícola e industrial, além das mudanças climáticas, aumentam significativamente a pressão sobre os recursos hídricos (MDPI, 2024). Nesse contexto, a gestão de recursos hídricos — entendida como o conjunto de instrumentos, políticas, instituições e práticas voltadas à conservação, distribuição e uso sustentável da água — torna-se indispensável.

No Brasil, a percepção histórica de abundância hídrica não se sustenta diante dos desafios contemporâneos, principalmente nas regiões mais densamente povoadas ou sujeitas a pressões econômicas intensas. A Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/1997) instituiu a gestão integrada e participativa como princípio basilar, consolidando o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), embora a efetividade de sua implementação varie amplamente entre regiões (Wikipédia, 2024; Banco Mundial, 2023).

Assim, compreender a gestão da água sob o prisma da conservação e da governança é fundamental não apenas para assegurar o abastecimento humano, agrícola e industrial, mas também para manter a integridade dos ecossistemas e a resiliência das bacias hidrográficas.

2. Fundamentos da Gestão Hídrica e da Conservação

2.1. Gestão Integrada de Recursos Hídricos (IWRM)

A abordagem IWRM (Integrated Water Resources Management) busca maximizar o bem-estar social e econômico sem comprometer a sustentabilidade ecológica, articulando políticas de água, solo e meio ambiente (Serviços e Informações do Brasil, 2023). Essa abordagem prioriza:

  • descentralização da tomada de decisão;

  • participação dos usuários e da sociedade civil;

  • coordenação entre escalas de governo;

  • planejamento de usos múltiplos;

  • transparência e monitoramento contínuo.

Os comitês de bacia, previstos na legislação brasileira, representam um dos pilares dessa integração participativa (ijcrt.org, 2023; SciELO, 2022).

2.2. Conservação da Água e do Solo

Água e solo são partes interdependentes de um mesmo ciclo. A degradação do solo, desmatamento, erosão e ocupações irregulares afetam diretamente a infiltração, recarga e qualidade das águas superficiais e subterrâneas (Embrapa, 2022). Práticas conservacionistas incluem:

  • recuperação de matas ciliares;

  • proteção de nascentes;

  • manejo adequado do uso do solo;

  • retenção de sedimentos;

  • recomposição de áreas de recarga.

Essas medidas contribuem para a estabilidade hidrológica e a manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais.

2.3. Recarga de Aquíferos e Armazenamento Natural

Estratégias de recarga natural e artificial de aquíferos vêm ganhando destaque global, especialmente em regiões de variabilidade climática e uso intensivo da água (acadlore.com, 2025). No Brasil, tais técnicas têm sido estudadas no contexto de segurança hídrica e adaptação às mudanças climáticas (Springer, 2025).

O uso de técnicas de Managed Aquifer Recharge (MAR) tem se mostrado promissor para enfrentar secas e pressionar menos os mananciais superficiais.

2.4. Planejamento, Monitoramento e Tecnologias Avançadas

A gestão eficiente requer dados hidrológicos confiáveis: precipitação, níveis piezométricos, demanda de consumo, uso do solo e qualidade da água (Bahia, 2024). Tecnologias emergentes — sensoriamento remoto, GIS, modelagem hidrológica, inteligência artificial — vêm sendo aplicadas em análises de cenários, previsão de demanda e otimização da alocação hídrica (Springer Link, 2024; arXiv, 2024).

3. Benefícios, Limitações e Desafios da Gestão Voltada à Conservação

3.1. Benefícios

  • Segurança hídrica: garantia de abastecimento humano, agrícola e industrial mesmo em períodos de escassez.

  • Sustentabilidade ambiental: preservação de ecossistemas aquáticos e manutenção da biodiversidade.

  • Resiliência climática: mitigação de impactos de secas e eventos extremos.

  • Equidade e justiça ambiental: participação comunitária e distribuição justa dos recursos.

3.2. Desafios Estruturais

  • Falhas de governança e coordenação interinstitucional.

  • Monitoramento hidrológico insuficiente.

  • Baixa capacidade técnica em muitos estados e municípios.

  • Conflitos de uso entre agricultura, indústria, saneamento, energia e meio ambiente.

  • Insuficiência de saneamento básico, que compromete a qualidade hídrica.

4. Panorama e Particularidades da Gestão Hídrica no Brasil

4.1. Estrutura Institucional

A ANA e o SINGREH representam avanços institucionais importantes, mas sua implementação encontra barreiras políticas e técnicas (Wikipédia, 2024; Banco Mundial, 2023). A disponibilidade hídrica brasileira, embora elevada em termos globais, é extremamente desigual, concentrada na Amazônia e escassa em regiões de maior densidade populacional.

4.2. Avanços e Experiências Positivas

4.2.1. Recarga de Aquíferos

Pesquisa recente aponta expansão de estudos e projetos pilotos de MAR no Brasil, especialmente em regiões semiáridas e áreas de alta variabilidade climática (Springer, 2025).

4.2.2. Governança Integrada

Comitês de bacia têm desempenhado papel relevante em diversas regiões, promovendo planejamento participativo e alocação racional da água (SciELO, 2022).

4.2.3. Valorização das Águas Subterrâneas

Pesquisadores como Aldo Rebouças enfatizam há décadas a necessidade de integrar águas subterrâneas ao planejamento hídrico nacional (Wikipédia, 2024).

4.3. Exemplos de Má Gestão e Crises Hídricas no Brasil

4.3.1. Crise da Região Metropolitana de São Paulo (2013–2016)

Estudos apontam que a crise não foi apenas climática, mas “socialmente construída” (UnB, 2016): falhas de planejamento, ocupação irregular, infraestrutura insuficiente e descoordenação entre instituições agravaram a escassez (Copernicus, 2019).

4.3.2. Itabuna (BA): Falhas Municipais de Governança

Apesar de abundância hídrica superficial, o município enfrenta perdas de água superiores a 40%, poluição, ausência de tratamento de esgoto e captação distante — revelando vulnerabilidade institucional (MDPI, 2023).

4.3.3. Semiárido Brasileiro

Estudos baseados no arcabouço de Ostrom indicam que a má governança amplifica drasticamente os impactos das secas no semiárido (Copernicus, 2015).

5. Integração: Conservação, Governança e Desafios no Contexto Brasileiro

As evidências mostram que técnicas de conservação — como irrigação eficiente, recarga artificial, recuperação de nascentes e manejo de solos — só são efetivas quando acompanhadas de:

  • governança forte;

  • participação social;

  • monitoramento contínuo;

  • políticas públicas consistentes;

  • saneamento básico;

  • integração entre setores (agricultura, mineração, indústria, abastecimento urbano).

Para setores com grande demanda hídrica, como mineração e construção civil, a gestão integrada é crucial para evitar impactos ambientais e garantir a longevidade das operações.

6. Conclusão

A gestão de recursos hídricos exige uma combinação profunda entre ciência, tecnologia, conservação ambiental e governança institucional. As experiências brasileiras demonstram que disponibilidade natural não garante segurança hídrica — ao contrário, regiões com rios abundantes podem sofrer colapsos caso falhem o planejamento, o monitoramento e o saneamento.

Ao mesmo tempo, casos positivos mostram que é possível avançar: a integração entre IWRM, conservação de solos e bacias, tecnologias modernas e participação social constrói sistemas hídricos mais resilientes. Em um cenário de mudanças climáticas e pressões crescentes, investir em gestão hídrica eficiente não é apenas necessidade ambiental — é uma necessidade estratégica para o desenvolvimento nacional.

7. Referências Bibliográficas

  • Acadlore. (2025). Review of Groundwater Recharge and Water Harvesting Strategies.

  • Aldo Rebouças – biografia e contribuições. Wikipédia.

  • ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. (2023). Relatórios Institucionais.

  • arXiv. (2024). Hydro-agronomic modeling and optimization for water allocation.

  • Bahia – Secretaria de Meio Ambiente. (2024). Relatórios de Monitoramento Hidrológico.

  • Banco Mundial. (2023). Water Resources Management in Brazil: Overview and Challenges.

  • Copernicus. (2015). Droughts and governance impacts on water scarcity in the Brazilian semi-arid.

  • Copernicus – HESS. (2019). Future water security scenarios for São Paulo Metropolitan Region.

  • Embrapa. (2022). Conservação de Solo e Água em Bacias Hidrográficas.

  • ijcrt.org. (2023). Integrated Water Resources Management Approaches.

  • MDPI. (2023). Water Governance Failures in Itabuna, Bahia.

  • MDPI. (2024). Climate Change Impacts on Hydrological Cycles.

  • Portal de Periódicos da UnB. (2016). São Paulo's 2013 Water Crisis: a socially constructed disaster risk.

  • SciELO. (2022). Participação e Governança em Comitês de Bacia no Brasil.

  • Serviços e Informações do Brasil. (2023). Gestão Integrada de Recursos Hídricos.

  • Springer Link. (2024). Hydrological modeling under climate variability.

  • Springer. (2025). Systematic Review of Managed Aquifer Recharge in Brazil.

  • Wikipédia. (2024). Política Nacional de Recursos Hídricos; Disponibilidade Hídrica no Brasil.